terça-feira, 28 de abril de 2009

retina digital

Era uma hora da tarde e mais um tanto e o sol queimava chato e ardido a cabeça de Marina. Apesar do extremo mau humor e estresse da manhã, ela estava melhorando - quartas-feiras era o pior dia da semana. A amiga ajudava e aos poucos já fazia as piadas bobas de sempre, as pessoas passavam apressadas por ela e pelo resto do grupinho de amigos. O ônibus custava a chegar e enquanto fazia as tais piadas, observava aquelas pessoas a sua volta.
Elas eram um pouco sem graça. Eram tão normais e ela gostava daquelas que eram estranhas. Aquelas que chamavam a atenção, mesmo que por uma característica apenas. Aquelas que usavam blusa de algum filme que ela adorava, mas ninguém gostava muito; aquelas pessoas que usam aquele tênis bonito; ou as que tinham cara de muito legais e que, com certeza, seriam amigos dela. E nenhumas daquelas pessoas naqueles quatro pontos de ônibus pareciam ser assim. Pelo contrário, todas estavam com cara de entediantes e entediadas.
Conversava olhando para a rua, para as pessoas nos outros pontos, para as pessoas esperando na fila por um cachorro quente entregue por um homem que fazia os trocadilhos mais idiotas. Via as pessoas correndo e subindo as escadas indo em direção a seus trabalhos e as que conversavam no celular. Os mocinhos que ficavam no semáforo fazendo malabarismo para ganhar um trocado e o homem que vendia um guarda-chuva colorido que ela amava e sempre quis comprar. As pessoas que passavam por esses homens malabaristas ouvindo música e que ela tentava adivinhar qual seria. Os carros que não paravam de passar e os ônibus que disputavam lugar nas ruas com eles.
Em meio toda essa observação foi quando viu uma pessoa que chamou muito a sua atenção. Na realidade a sua amiga havia o avistado.
- Olha só aquele cara foda com uma câmera fotográfica! 

Quando olhou para o lado viu um homem com uma câmera daquelas profissionais e ela era apaixonada por fotografia, mas o que a fez ficar mais feliz não era por ele ter uma câmera 
e sim as fotos que ele tirava. Aquelas coisas que ela observava: a correria, os carros, os ônibus, o malabarista no semáforo. Essas eram as suas fotos. Ele se aproximava das pessoas e apertava o botão da câmera. Um pai com o filho rindo e montado em seus ombros. Clique. O ônibus parava no ponto, as pessoas iam correndo até ele e as outras desciam preocupadas em chegar a tempo seja onde era que tinham que estar. Clique. O ônibus ia embora e passava perto do malabarista que agora esperava na calçada porque o sinal estava verde. Clique. Eram fotos espontâneas e fotos assim sempre saiam lindas. Ela estava totalmente segura de que as fotos daquele homem eram muito boas e o achava muito corajoso por chegar perto das pessoas e fotografá-las.
Ele dava voltas pelo lugar, ia até o final da rua para atravessar uma cerca e caminhava de um lado para o outro só para ter um melhor ângulo. Se fosse ela tirando foto, também faria is
so só para ter fotos melhores. Andando na grama e procurando bons focos, ele parou e começou a tirar fotos dela e de seu grupo de amigos.
Marina queria muito que estas fotos, mais que todas as outras, saíssem boas e que parecesse que ela queria isso, porque assim quando o moço as revelasse ia ver o quanto ela gostava de fotografia também. Ela não sabia como ele ia perceber isso, mas ele iria e ia ficar feliz por saber que havia pessoas que compartilhavam da mesma paixão - ela, pelo menos, ficava feliz com ess
as coisas bobas.
Foi então quando o ônibus chegou e ela subiu, mesmo lá de dentro ainda procurava o rapaz para ver se ele continuava a tirar fotos. Do fundo do coração ela queria que suas fotos fossem maravilhosas e continuou torcendo para que isso acontecesse enquanto o ônibus ia embora.

E durante aquele tempo em que ficou esperando o ônibus chegar, ela se apaixonou por aquele moço fotógrafo das correrias e do cotidiano das pessoas. E quando chegasse em casa poderia acrescentar ele em sua lista de paixões platônicas que nunca mais veria na vida e que esqueceria, provavelmente, em cinco minutos.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O trevo no meu jardim.

Eu poderia citar milhões de coisas e botar em uma lista tópicos sem fim, mas você sabe que eu não preciso fazer isso porque você sabe das coisas. E além do fato de as palavras não serem meu forte. Pelo menos não como são para você. - e eu sei que você sabe que eu sei que você 
sabe que é difícil de dizer.


O que ainda me deixa surpresa é o fato de que, em menos de um mês naqueles tempos remotos de vergonha, eu sentia que aquela música da Lily era nossa música, mesmo que fosse só por um verso. E I still don't know why I trusted you, but I knew that I could. E agora eu não sinto mais que a música da Lily é a nossa música. Eu sinto que todas as músicas são as nossas músicas, porque você é a minha música. Aquele jazz e o mpb gostoso cantado no meio da rua, seguidos de poucos sorrisos alheios que eu sei que foram sinceros, sinceros como seu sorriso de idiota e idiota como os litros de saliva que babamos por dia.
E se eu sou toda essa merda que eu sou hoje, foi por sua causa. Várias pessoas abriram portas para mim, mas você abriu a melhor. O que você disse no depoimento está muito certo: eu me descobri em vocês. E você foi a que desatou o nó cego que me prendia à vergonhinha tonta.
Com você eu comecei a ser a feliz e boba alegre que estava esperando o sinal para sair. E agora eu posso ser o quanto idiota eu quiser e gritar o quanto quiser, porque você vai estar com certeza me fazendo companhia. Eu posso desabafar nos meus picos de ódio e deixar você com muito medo por causa disso tudo. Eu posso sentar no chão de tanto rir de uma piada idiota que você vai estender a mão pra me levantar, mas só porque você está passando vergonha. Eu posso gritar no meio da rua e você vai gritar comigo, ou ficar com vergonha de novo.
Realmente dividimos gostos rídiculos, porque nós nos gostamos e você quer pessoas mais rídiculas que nós mesmas? Nem a Amanda Palmer é assim. Dividimos, também, gostos psicologicamente bissexuais. Sim, seremos bests da Estéllen e da bonita um dia. Sei disso porque antes de começar a conversar com você eu tinha certeza que ia ser sua amiga, assim como você também tinha certeza sobre mim.

E o que eu mais gosto na gente eu não sei realmente explicar. Somos nojentas, mas temos muito nojinho. Somos impulsivas e damos os abraços mais estranhos nos momentos mais inoportunos. Enquanto eu vejo os outros dividindo as suas coisas exatamente e metodicamente iguais, misturamos tudo e para gente tá bom. É olhar em volta e ver todas aqueles amigos que não parecem que tem a ligação toda que a gente tem e então olhar para o lado e ver você babando e com um dedo no nariz e ter vontade de te acompanhar, só porque na hora pareceu legal. - E vai me dizer que você não me imagina sentada numa daquelas cadeiras do Objetivo, com cara de idiota, babando e coçando a bunda?
Você é como a minha cor falida: aquela que a maioria acha meio tosca, mas que eu acho linda. Ou como a foto do meu braço necrosado: tem aquela coisa bizarra no cantinho, mas que não me impede de ainda gostar muito do resto.


Enquanto eu vou andando até aquele cursinho todas as manhãs, o mundo vai girando e ele nos espera, para sermos idiotas e felizes, numa boa. Eu sei, meu bem.
E eu te amo muito, até não sermos mais mutantes. Ou seja, pra sempre.




Isso não é tudo, mas é o máximo que eu consigo explicar sem parecer mais lésbica que já parecemos.