Era uma hora da tarde e mais um tanto e o sol queimava chato e ardido a cabeça de Marina. Apesar do extremo mau humor e estresse da manhã, ela estava melhorando - quartas-feiras era o pior dia da semana. A amiga ajudava e aos poucos já fazia as piadas bobas de sempre, as pessoas passavam apressadas por ela e pelo resto do grupinho de amigos. O ônibus custava a chegar e enquanto fazia as tais piadas, observava aquelas pessoas a sua volta.
Elas eram um pouco sem graça. Eram tão normais e ela gostava daquelas que eram estranhas. Aquelas que chamavam a atenção, mesmo que por uma característica apenas. Aquelas que usavam blusa de algum filme que ela adorava, mas ninguém gostava muito; aquelas pessoas que usam aquele tênis bonito; ou as que tinham cara de muito legais e que, com certeza, seriam amigos dela. E nenhumas daquelas pessoas naqueles quatro pontos de ônibus pareciam ser assim. Pelo contrário, todas estavam com cara de entediantes e entediadas.
Conversava olhando para a rua, para as pessoas nos outros pontos, para as pessoas esperando na fila por um cachorro quente entregue por um homem que fazia os trocadilhos mais idiotas. Via as pessoas correndo e subindo as escadas indo em direção a seus trabalhos e as que conversavam no celular. Os mocinhos que ficavam no semáforo fazendo malabarismo para ganhar um trocado e o homem que vendia um guarda-chuva colorido que ela amava e sempre quis comprar. As pessoas que passavam por esses homens malabaristas ouvindo música e que ela tentava adivinhar qual seria. Os carros que não paravam de passar e os ônibus que disputavam lugar nas ruas com eles.
Em meio toda essa observação foi quando viu uma pessoa que chamou muito a sua atenção. Na realidade a sua amiga havia o avistado.
- Olha só aquele cara foda com uma câmera fotográfica!
Quando olhou para o lado viu um homem com uma câmera daquelas profissionais e ela era apaixonada por fotografia, mas o que a fez ficar mais feliz não era por ele ter uma câmera
e sim as fotos que ele tirava. Aquelas coisas que ela observava: a correria, os carros, os ônibus, o malabarista no semáforo. Essas eram as suas fotos. Ele se aproximava das pessoas e apertava o botão da câmera. Um pai com o filho rindo e montado em seus ombros. Clique. O ônibus parava no ponto, as pessoas iam correndo até ele e as outras desciam preocupadas em chegar a tempo seja onde era que tinham que estar. Clique. O ônibus ia embora e passava perto do malabarista que agora esperava na calçada porque o sinal estava verde. Clique. Eram fotos espontâneas e fotos assim sempre saiam lindas. Ela estava totalmente segura de que as fotos daquele homem eram muito boas e o achava muito corajoso por chegar perto das pessoas e fotografá-las.
Ele dava voltas pelo lugar, ia até o final da rua para atravessar uma cerca e caminhava de um lado para o outro só para ter um melhor ângulo. Se fosse ela tirando foto, também faria is
so só para ter fotos melhores. Andando na grama e procurando bons focos, ele parou e começou a tirar fotos dela e de seu grupo de amigos.
Marina queria muito que estas fotos, mais que todas as outras, saíssem boas e que parecesse que ela queria isso, porque assim quando o moço as revelasse ia ver o quanto ela gostava de fotografia também. Ela não sabia como ele ia perceber isso, mas ele iria e ia ficar feliz por saber que havia pessoas que compartilhavam da mesma paixão - ela, pelo menos, ficava feliz com ess
as coisas bobas.
Foi então quando o ônibus chegou e ela subiu, mesmo lá de dentro ainda procurava o rapaz para ver se ele continuava a tirar fotos. Do fundo do coração ela queria que suas fotos fossem maravilhosas e continuou torcendo para que isso acontecesse enquanto o ônibus ia embora.
E durante aquele tempo em que ficou esperando o ônibus chegar, ela se apaixonou por aquele moço fotógrafo das correrias e do cotidiano das pessoas. E quando chegasse em casa poderia acrescentar ele em sua lista de paixões platônicas que nunca mais veria na vida e que esqueceria, provavelmente, em cinco minutos.

