quarta-feira, 24 de junho de 2009
Não grita que eu gosto.
Vou ficar todos os dias a tarde naquele cursinho para ver você gritando no corredor de novo, até a hora que seremos amigas. Então, outras pessoas vão ficar no cursinho a tarde, porque vão querer gritar com a gente também.
terça-feira, 23 de junho de 2009
A menina das calças legais.
Ele não conseguia se concentrar e nem ao menos estava sentado próximo dela: a menina das calças legais. Um dia ele ia falar com ela, de verdade, não ia só pegar o lápis que caiu ou falar um tchau envergonhado. Eles se sentariam, no chão, ela com as calças dela e ele com a dele - porque tinha apenas uma legal - e nesse hora todos iam olhar para eles e acha-los lindos. Mas ela, claro, achariam muito mais. Como ela não seria a mais bonita? Com aquele cabelo que era liso, mas ao mesmo tempo enrolado; as pontas formavam cachinhos mais bem feitos, o comprimento era ondulado e a raiz, lisa, com uma franjinha presa com um tic tac de flor vermelha de pano. Aqueles brincos de pérola, ou algo que parecia muito; ele não sabia ou conhecia essas coisas, mas estava tudo bem porque ela não devia saber também e devia ser da mãe ou da avó. O nariz franzido quando sorria falando um oi sem som, acompanhado das bochechas um pouco mais vermelhas, assim como a flor que brincava no cabelo. As sardas em volta do nariz enfeitando a pele bem branca e que se escondiam de vergonha, assim como ele, quando ela sorria. A bochecha que ficava gordinha mesmo quando estava séria. Os olhos grandes e escuros e um risquinho que cruzava suas maçãs do rosto quando ela ria igual a Maria Rita - que ele gostava tanto.
Tudo nela era tão bonito que o professor falava, mas ele não prestava atenção. Pegou um papel e tentava escrever alguma coisa para ela, sobre ela, uma história dela. Ele gostava de criar história sobre as pessoas e fazia isso com ela, enquanto a observava do outro lado da sala. E ele ainda ia falar que também gostava de Tom Jobim e que achou muito legal ela escrever coisas dele em seu caderno. E que achava o seu lápis, todo cheio de bandeiras, lindo. Muito lindo.
Ele continuava escrevendo, mas não queria mais, pois assim tinha que olhar para o papel branco e liso, não para ela, toda cheia de ondas nos cabelos e cor, principalmente naquela ponta de nariz vermelho e gripado. E ele gostava quando ela o assoava, porque ela franzia o nariz e ficava do mesmo jeito quando ela sorria piscando falando tchau.
E quando ele olhava para ela e ela também estava olhando, sentia muita vergonha, abaixava os olhos e tentava enconder um sorriso bobo enquanto pensava que iria guardar o material bem devagar na hora de ir embora, para poder sair pela porta junto com ela e falar outro tchau com bochechas vermelhas. Ele ia sair daquela sala e ir para casa torcendo para que no dia seguinte conseguisse sentar ao lado dela.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Ô, Rita, não sai da janela.
Acho que eu entendo agora o clique que dá na cabeça daqueles cineastas quando eles vêem um ator e sentem que ele serve exatamente para o papel.
Ninguém, nem ganhadoras do Oscar, seriam uma protagonista melhor que ela. Eu sei disso. Ela é a Rita e vai ser, com as saias compridas, aquele cabelo lindo e as fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim no pulso.
[do filme - parte 3, 4 ou 5]
A platéia não aplaudia, a orquestra não tocava, o maestro parou de reger. Não porque as notas já não tinham o mesmo gosto ou porque a melodia tinha perdido a sua beleza, mas porque a música era difícil demais para ser tocada. Legal, bonita, bárbara demais. O maestro estava sofrendo, naquele exato momento, um ataque cardíaco. Segundos ou minutos, não saberia dizer, mas que pareceram horas. Parecia que ele havia morrido e retornado para Terra, só para bater novamente e fazer ela sentir que ainda estava viva, que estava lá e, principalmente, que ele estava lá. Na sua frente, olhando diretamente para ela, com um brilho nos olhos diferente do de sempre.
sábado, 13 de junho de 2009
O mundo se enche de graça.
Ela pegava a lapiseira e deixava mil papéis prontos. A borracha ficava lá do lado. Gastava quase o caderno inteiro riscando e rabiscando palavras que pareciam não ser suficientes. Palavras que pareciam incompletas e feias, mesmo que no dicionário seus significados fossem os mais belos e profundos. Nenhuma dessas palavras seriam tão expressivas quanto o que o coração dela falava.
Pena que ela não consiga traduzir em palavras em português, escritas no papel ou ditas quando o via, tudo o que o coração dela falava naquela língua tão estranha que nunca havia escutado antes. Tudo que ele dizia estava por demais gravados e amarrados nele, por isso, talvez, que não consigia reproduzi-las corretamente. Se ela não entendia o significado exato de todas as frases e sentenças que ele contava, sentia o significado exato. Isso era o mais importante para ela, por isso tinha medo de trocar o sentido das coisas quando tentasse, com suas palavras e escritas tão toscas, dizer aquilo que sentia. Aquilo que era tão bonito e fazia ela sorrir sozinha, no meio do ônibus ou quando ficava pensando nas coisas da vida antes de dormir, quando lia alguma coisa ou via um filme, no caminho quando ia se encontrar com ele. Bonito como nada mais no mundo, um bonito cheio de ansiedade e paixão, com um pouco de vergonha e uma alegria que formava todas as cores do espectro, que não caberiam nem em um milhão de paletas e com cores que ela não conhecia e descobria a cada momento.
Ouviu uma vez numa música "quando a gente ama brilha mais que o Sol", e se isso fosse verdade, ela seria o próprio Sol e o Sol estaria apenas no brilho do sorriso dela. Um sorriso que só ele trazia e ficava mais lindo, por causa do amor.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Eu gosto de andar de ônibus. Eu só preciso de um pouco de música e um fone de ouvido, às vezes nem isso. E eu gosto da familiaridade. Reconhecer as várias pessoas diferentes, passar pelas ruas e reconhecer tantas outras. Ver quando estou atrasada ou adiantada pelo o que acontece nessas ruas. Conhecer a rotina da cidade, ver as pessoas de lá e imaginar uma história para cada uma.
E saber que essas tantas pessoas também conhecem a sua rotina e te reconhecem. Como quando você sobe no ônibus e o motorista fala: "Sumida, ein?", ou quando um outro motorista percebe que você não entrou, te vê na esquina e espera até você correr para subir e não chegar atrasada para o cursinho. Um dia eu ainda descrevo direito tudo sobre essas pessoas.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
É uma coisa bonita de se ver.
O coração pulsa mais forte. O resto é conseqüência. O estômago embrulha e esfria, as pernas e braços tremem, a garganta seca e a sua voz falha. Depois que o coração bateu essa primeira vez, o corpo apenas obedece. Ele não pensa ou questiona, apenas age. O coração é o maestro e é ele que rege; os sentimentos são a orquestra, que dão as notas às músicas e gosto especial às notas; o seu corpo é a platéia, que sente tudo isso e fica apreensivo para ouvir. Então forma-se a sinfonia e tudo o que você tem que fazer é escutar. Olha como isso é legal.
Coisas assim não se explicam. Simplesmente acontecem. Elas não têm um porquê ou um como, muito menos hora para acontecer. Esses maestros tiram energia para ficarem tanto tempo parados em frente à orquestra exatamente por esses momentos inesperados no qual pulsam mais forte. E de onde vem o impulso que levam aos pulsos descontrolados deles? No caso dela, ele vinha dos olhos. Não dos olhos propriamente ditos, mas do que os olhos viam.
Talvez fosse uma pessoa qualquer, mas para ela, ele era notável. Toda vez que o via era uma coisa incontrolável, não resistia e sorria demais. Mordia os lábios para tentar esconder e fingir o sorriso, mas mesmo que ela conseguisse contê-lo de escapar pelo canto da boca era denunciada por suas expressões que também sorriam. Era olhar e sorrir. Ver ele falando falando e sorrir.
E talvez não fosse exatamente o fato de ver que dava ritmo as batidas do coração. Ela podia não ver que sorriria. O que impulsionava eram as palavras. Olha como isso é bonito.
Toda uma orquestra de sentimentos maestrada pelo coração e que ela escutava com o corpo. Uma sinfonia que ela não sabia explicar, que ninguém nunca soube explicar. Acontece quando o coração quer, quando ele pulsa aquela única vez mais forte. Quando ele sente vontade, independente das suas vontades. É bem simples na verdade, querendo ou não você escuta a sinfonia. Ela começa quando o maestro dá aquela batidinha no painel que segura a partitura, mas esse maestro não lê a partitura.
E não importa quantas vezes o coração toque a sinfonia, ela é boa e nunca cansa. Você escuta aquela primeira vez que até faz os pêlos do seu braço se arrepiarem, escuta de novo várias vezes, e pode passar o tempo que passar que ela ainda vai soar esplêndida. Essa é a forma do coração de se mostrar, de se comunicar com você. Ela já escutava essa música regida por ele fazia tempo. Ela a sente faz tempo e gosta muito de todas as notas, de todos os arranjos que ele cria. Ela gosta de escutar a sinfonia e fica muito atenta toda vez que ele fala. Olha como isso é bárbaro.
E o corpo dela escutava, com todos os sentidos, o que ele tinha a dizer.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Run, Lola, run.
Calçou o tênis, pegou o mp3, colocou os fones de ouvido, foi até a esteira. Era daquelas velhas que não têm milhões de botões, você tinha que fazer o esforço de correr. Empurrar a esteira para trás para poder ficar andando no mesmo lugar, não era apenas acompanhar o chão que andava por você. Ela ligou a música: Iggy Pop, ele gritava um pouco - que bom. E deu o primeiro passo respirando fundo. Bem fundo.
Passada após passada, todas forçavam a esteira a não parar. Sentia as batatas da perna contraindo. Deu um tempo para o coração achar seu ritmo devido ao aumento de esforço, então, pôs-se a correr. Até não conseguir mais. Até faltar o ar, até as coxas e panturrilha começarem a doer de tanto esforço. Ela sentia a falta de oxigênio nos músculos e sentia o ácido lático sendo produzido para compensar. Ela ia ficar com muitas dores depois, mas não parava. Sentia todas as sinapses acontecendo em seu cérebro que faziam suas pernas se moverem e suas mãos apertarem mais forte o braço da esteira, e se prestasse mais atenção ia perceber como seu bulbo mandava o coração aumentar a freqüência cardiaca.
Falaram para ela um dia que exercícios eram bons, não bons apenas para o condicionamente físico, ele também ajudava a desestressar e isso era uma coisa que ela precisava com muita urgência. Queria se desestressar e queria correr para longe das coisas por algum tempo - útil e agradável, era só juntar, não era? "Filho da puta de estresse, estresse, estresse, estresse!"; tinha a certeza que ia ter uma úlcera até o final do ano e com os cabelos que caiam da sua cabeça seria capaz de fazer três perucas por dia. Precisava, necessitava, ansiava que o estresse fossem embora junto com seus passos rápidos, compassados e cansados.
Entendia o suor na testa, as dores na coxa, a falta de ar como se fossem um protesto de seu corpo para que ela parasse mas ignorava, se concentrava em continuar correndo e esquecer a dor, e esquecia dos problemas.
Então, ela corria. Corria muito.
Continuava correndo enquanto Iggy Pop gritava por ela.
Era tudo o que queria. Alguém para se importar com ele. Alguém para abraçar. Alguém que esquentasse ele. Ninguém queria.
Quando a gente se abraça no escuro, não faz a escuridão sumir. As coisas ruins continuam ali. Os pesadelos continuam à solta. Quando a gente se abraça, não se sente seguro, mas se sente melhor. "Está tudo bem", sussuramos. "Estou aqui. Eu te amo.", e mentimos: "Nunca vou te abandonar".
Só por um ou dois instantes, parece que a escuridão não é tão ruim. Quando a gente se abraça.
Neil Gaiman.
(Dias da Meia Noite, "Me Abraça")
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