E quando não se tem mais a esteira? E quando não se tem mais como correr? E agora, Lola, run para onde? Você não correria de verdade, não sairia pela rua, não iria num parque para correr e se desestressar. E se você cansasse no meio? E se você passasse mal? Se a bateria do seu mp3 acabasse ou um fone parasse de funcionar? Como você ia voltar para casa? Andando de volta eu sei que não. Você tem medo, mas quer correr.
Você marcha, José. José, para onde? O Iggy Pop está gritando na música que sai do mp3 e não pára.
Suas passadas cansadas de quem não quer mais correr, de quem não quer mais respiração ofegante. Seus pés não querem mais sentir o chão te empurrando para cima e não querem empurrar o chão para trás, mas agora a esteira não pára de andar. Você tem que andar, é só mais um pouco.
Muito ácido lático, pouco oxigênio e aquela dor na paturrilha que não cessa. Pode continuar correndo, eu sei que você quer apesar de toda dor e todo medo. Quer que eu corra junto com você? Eu faço uma massagem se der cãimbra e te seguro se começar sentir aquela pontada no tórax de correr demais. O povo sumiu, a noite esfriou. Eu te levo para casa se você achar que não tem ninguém - mas tem alguém, sempre tem, você que não vê. O povo não sumiu, não.
Na maior parte das vezes é você que cobra, sabia? Sempre acha que qualquer comentário é uma bronca ou um motivo para brigarem e te deixarem sozinha, mas não, você é que se cobra demais. Me responda, Lola: É por isso que você corre? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua incoerência, seu ódio - e agora? Seu medo? E agora que a esteira acabou? Como você vai correr? Para onde você vai correr? Para onde você quer correr? Você ainda quer correr?
Está acabando, Lola, é só olhar para frente. Você vai enxergar as coisas se olhar para frente, mas você sempre corre olhando para o chão. Respire fundo mais uma vez - Iggy Pop está gritando mais forte que você e ele ainda tem fôlego para outra música. Lola, para onde?