quinta-feira, 17 de junho de 2010

Bolachas e cães vira-latas.

A menina foi a primeira a chegar. Estranhou um pouco, conheceu alguns colegas e conversava com eles, mas não tinha sentido nada.
Seus gostos não eram parecidos: Ela gostava de cinema, eles de novela; ela de um piano e um violão, eles de funk e sertanejo; ela de ficar em casa, eles de festa - eram bem contraditórios, mas se davam.
Logo, alguns desses colegas começaram a sair e outros novos a entrar. Foi numa dessas trocas que a garota chegou.
A garota desenhava, usava flores no cabelo, tinha canetas coloridas que combinavam com as cores que ela deixava pelo caminho, não tinha medo de usar cachecóis gigantes e carregava o mundo, às avessas, no pescoço. A tal garota se aproximou com intimidade, fazendo piadas e se enturmando; a menina, toda envergonhada, ficou quieta dando sorrisinhos.
Em uma manhã fria de quarta-feira, a menina decidiu não sair da cama. No dia seguinte a menina chegou surpresa - houve mais uma troca e um novo rapaz tinha chego.
Ele era meio fotógrafo, gostava do mesmo músico que tocava piano e da mesma Regina, tinha aquele toque feliz infanto-juvenil cheio das suas camisetas listradas e flaneladas. A primeira coisa que pensou quando viu-o: "Se ele dançasse, aposto que ia parecer com o Pernalonga".

Aos poucos, mais confiante, foi fazendo amizade e conversando.
Talvez não fosse recíproco, ou talvez (e esperava que) fosse, mas ela sentia a intensidade das cores e o gosto das notas com eles. Aquele tantinho com cheirinho de arte que ela sempre gostava que vinha de lá, do outro lado da sala.
O fundinho idiota e cheio de piadas ruins que tinha sido varrido pra debaixo do tapete aparecia pelas beiradas. Se ela gostava de cinema, eles também gostavam; se ela gostava de piano, eles de violão e de violino; se ela quisesse ficar em casa, eles também ficavam e faziam miojo.
Estranhou um pouco, mas "primeiro estranha-se, depois entranha-se", alguém talvez diria. Agora, com eles, conversava e sentia alguma coisa. Agora ela se sentia confortável - como uma criança que faz os objetos flutuarem e recebe uma carta especial entregue por uma coruja quando faz onze anos -, se sentia feliz - como quando você termina um desenho, entrega para uma pessoa e essa pessoa abre um sorriso gigante. Se sentia orgulhosa - como quando você termina de tocar uma música e todo mundo bate palma.

Talvez algumas pessoas os chamasse de idiotas pelas costas. Eram idiotas, sim, mas sobretudo, felizes.
Para a menina era um início de amizade que tinha tudo para ser bem bonita. Cheia de figuras e desenhos, cheia de notas e com as cores favoritas juntas em uma mais bonita ainda.
E encontrou nisso o empurrãozinho de inspiração e idéias que lhe faltava.