quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ausência.

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e avida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei a minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Moraes.

Quando você pensa que sabe alguma coisa sobre o amor, Vinicius de Moraes descobriu bem antes que você.

domingo, 4 de setembro de 2011

vamos pintando assim.

você não precisa, meu bem, sentir tanto medo. você está por ai distribuindo cores tão bonitas, mas pra mim, insiste na tinta cinza. aquele cinza de portão, criando uma grade pra nos separar. quando me vê, do outro lado do corredor, perde o sorriso do rosto. amor, você não sabe como fica bem com ele, por favor, não se aborreça.
mas naquela sua grade você pintou uma placa - cinza também - dizendo: 'não alimente os animais'. e em volta da minha jaula, usa todas as cores do arco-íris. não consigo mais imaginar o que tem lá no final, você deixou tudo muito monocromático por aqui e a minha tinta carmim acabou. tenho só água-raz e o que sobrou no pincel.
deixa eu pintar o meu nariz, então?

sábado, 3 de setembro de 2011

me contento em sorrir
e dizer que está tudo bem.
os dias tentam negar
e me convencer a sofrer,
mas sou mais forte que isso.

sou melhor do que isso
e estou construindo meu castelo de novo.

um castelo nas costas.
de cartas,
tenho que ter mais calma
que força.
foco. paciência.
certo,
talvez bem não seja a palavra.
mas respiro fundo, junto
e dou mais um passo no escuro.

você me prendeu,
lá nas masmorras.
mas escapei,
me libertei,
e achando lindo fugir.

lá fora te enfretei,
bati, gritei.
prendi seu dente na porta
e fechei.
foi importante pra mim,
mas você bufou
e meu castelo se desfez.

às vezes,
a cicatriz da algema dói.
mas vou:
sem olhar pra trás.
quero,
mas não vou.
vou pra longe,
em algum outro lugar
onde eu possa montar meu castelo,

com todo o cuidado,
de novo.

e vou me lembrar de não ser o coringa desta vez.
"Que Setembro seja melhor e supere todas as angústias, medos e inseguranças e azar de um Agosto fodido."
-caio fernando abreu

Sinto uma setembrite chegando. Mas apesar de toda essa febre que você vai me causar, eu sei que vai, espero que seus dias sejam diferentes, melhores.